Todos os dias, quer vejamos ou não, o sol nasce e adormece,
De vinte e quatro em vinte e quatro horas a lua namora a terra e o sol,
Também o nosso corpo, qual relógio biológico, marca dias, horas e minutos,
Para dormir, acordar, trabalhar, amar, aprender e desaprender,
E, assim sucessivamente, todos os meses, anos e décadas,
Fazemos parte de um ciclo que obecede à marcação do tempo e dos tempos,
Como o mar que enche e vaza de maré em maré,
Como a ave migratória que voa de lá para cá e de cá para lá,
Como a planta que nasce, cresce, floresce, reproduz-se e morre,
Como o sonho que vem, perturba ou alegra e termina ao acordar
Enfim, fazemos parte desta rotação em espiral, que circula
Subindo ou descendo, segundo o azimute do observador,
E que termina, fisicamente, gritando em silêncio,
Até aqui consegui chegar, ultrapassar e vencer,
O amanhã breve irá chegar, assentar-se e observar,
Colocando um ponto final numa frase de vida por acabar,
Sim porque há sempre mais para aos outros apresentar...
Açores, 27OUT2007
JL
Verdes são os teus vestidos
Cores de pedra são os teus calçados
Azul é a pista onde tu danças
Escarpados montes são tuas tranças
Teus amores são teu povo
Que sempre te deseja de novo
Mesmo em terra longínqua emigrado
Continuas a ser o amor mais desejado
De ti, muitos visitantes falam
De tuas flores que perfumes exalam
De tua respiração que são fumarolas
Com tuas paisagens a todos consolas
Tu és como o primeiro amor
Cujos beijos são dados com fervor
Nas memórias assentas arraiais
As lembranças de ti são festivais
Tuas aves ecoam sons musicais
Que não se confundem com acordes triviais
Tua flora é cabelos ao vento, ondulante
Tua fauna é vida de produção pululante
Tuas nuvens são o nosso opaco véu
Que nos alertam para a inspiração do céu
Tua chuva abundante nos enche de frescura
Tua fragrância nos alivia a solidão e amargura
Tua brisa matinal sacia a nossa inquietação
Teu por do sol enche nossos olhos e coração
Tuas noites estreladas são gozo confortante
Estar contigo é melhor que presença de amante
Te nomearam de Ilha de Miguel Arcanjo,
Para mim és música e instrumento que tanjo
És amor que me fala, quando meu íntimo sondas
És berço de vida que me embala na crista das ondas
JL
QUEM SOU EU?
Procuro no dia a dia encontrar
Para ao meu ego mostrar, saciar...
Para com ele falar, dialogar, reafirmar.
Encontrar o quê?
Encontrar das coisas o porquê,
Explicação para tudo para além do que se vê.
Travo com ele batalha tal,
Renhida de extremidade brutal,
Sem sentido e sem nexo sentimental.
Rodeio-me de justificações
Esgrimo argumentos embebidos de acutilações,
Exausto constato a fragilidade das minhas razões.
Não, não estou de filosofia falando,
De qualquer ciência ou tema deambulando,
Mas da procura dos porquês, e estes justificando.
Analiso constantemente,
As palavras, os actos, os espelhos da mente,
Nos hemisférios interiores do composto denunciante.
Sim, porque os olhos falam,
Denunciam quais cortinas que ambiente explanam
São escape que o ser e alma com profundidade identificam.
Regresso à minha interna discussão
Como se de dois seres se tratasse em coabitação
Na procura, na ânsia de resposta cabal dar à meditação.
Sem abstracções, fugas ou dúvidas, concluo:
Meu ego é meu, qual nascente de pensamento fluo
Como simbiose paralela e linha interceptada constituo.
Sou o que sou, sou eu,
Sou fruto de herança e planta que universo teceu,
Sou amigo e inimigo meu, do meu eu, no que se converteu.
Açores
JL